Quando os f*scistas mandaram chamá-lo naquele dia, Gino Bartali sentiu medo. ~ Esperancanews

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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quando os f*scistas mandaram chamá-lo naquele dia, Gino Bartali sentiu medo.

 


Quando os f*scistas mandaram chamá-lo naquele dia, Gino Bartali sentiu medo.

Mas sabia que não podia recusar.
Eles conheciam sua casa, sabiam quem ele era e sua família poderia pagar o preço por qualquer desobediência.
Naqueles anos, Bartali era um herói nacional. Já havia conquistado o Giro d'Italia em três ocasiões, vencido o Tour de France duas vezes — em 1938 e novamente em 1948, naquela que é considerada uma das maiores voltas da história do esporte —, além de triunfar na Milão-San Remo, no Giro da Lombardia e em dezenas de outras provas. Sua resistência física era lendária. Enfrentava montanhas, tempestades e percursos quase impossíveis como poucos ciclistas conseguiam.
Desde o início da guerra, ser parado durante os treinamentos entre Florença e Assis havia se tornado rotina. Quase sempre, ao reconhecerem o grande campeão, os soldados sorriam, pediam um autógrafo ou apenas o deixavam seguir viagem.
Naquele dia, porém, não era uma simples abordagem.
Bartali havia sido convocado para comparecer à Villa Triste, sede da temida Gangue Carità. Liderado por Mario Carità, aquele grupo era um dos braços mais violentos do f*scismo italiano, responsável por perseguir membros da resistência, capturar opositores, infiltrar agentes e arrancar confissões sob t*rtura.
O edifício havia se transformado em um símbolo do terror.
Moradores diziam que os gritos vindos do porão podiam ser ouvidos do lado de fora. Em alguns momentos, um piano era tocado apenas para abafar os sons das sessões de t*rtura.
Assim que chegou, Bartali foi conduzido ao subsolo. Diante dele estavam bastões, armas, correntes e diversos instrumentos usados para t*rt*rar prisioneiros. Mesmo acostumado a suportar dores extremas nas estradas mais difíceis do ciclismo, sentiu o peso daquele ambiente. Anos mais tarde, lembraria daquele momento dizendo:
"Naqueles tempos, a vida não valia nada. Dependia de um fio, do acaso, do humor dos outros."
E, naquele instante, sua vida dependia justamente do humor de Mario Carità.
Sobre a mesa havia algumas cartas interceptadas pelos f*scistas. Eram mensagens enviadas pelo Vaticano agradecendo a Bartali por sua colaboração. Carità queria descobrir o verdadeiro motivo daqueles agradecimentos.
Perguntou se ele transportava armas.
Bartali respondeu que sequer sabia atirar.
O interrogador insistiu. Se não eram armas, então havia outra coisa escondida em seus trajetos. Exigiu que confessasse.
Sem alterar a voz, Bartali respondeu que apenas distribuía alimentos — café, farinha, açúcar e outros mantimentos — para famílias necessitadas.
Carità não acreditou.
Era difícil imaginar que o Vaticano enviasse cartas de agradecimento a um dos maiores atletas da Itália apenas por entregar alimentos. Mesmo assim, Bartali repetiu exatamente a mesma história.
Era uma mentira cuidadosamente construída.
Enquanto todos acreditavam que ele apenas treinava para manter a forma, Bartali pedalava centenas de quilômetros transportando documentos falsificados escondidos dentro do quadro e do guidão de sua bicicleta. Como era um ídolo nacional, os soldados raramente desmontavam sua bicicleta para uma inspeção completa, permitindo que ele cruzasse postos de controle carregando fotografias, certidões de batismo e documentos de identidade produzidos por uma rede clandestina ligada ao arcebispo de Florença e ao Vaticano.
Esses documentos davam novas identidades a judeus perseguidos e a integrantes da resistência, permitindo que escapassem da prisão, da deportação e, muitas vezes, da morte.
Além disso, Bartali também abrigou em sua própria casa uma família judia, colocando sua esposa e seu filho em enorme risco sem jamais revelar o verdadeiro motivo.
Mesmo diante de um dos homens mais perigosos do fascismo italiano, ele manteve a promessa feita aos religiosos que coordenavam aquela operação clandestina.
Não revelou absolutamente nada.
Nem mesmo Adriana, sua esposa, ou o pequeno Andrea sabiam exatamente o que ele fazia. Mantê-los sem informações era, na verdade, uma forma de protegê-los. Se fossem capturados, não poderiam revelar aquilo que desconheciam.
Terminada a guerra, Bartali voltou às competições como se nada tivesse acontecido. Em 1948, já com 34 anos e considerado velho demais para vencer, conquistou novamente o Tour de France de maneira extraordinária. Recuperou mais de vinte minutos de desvantagem nas montanhas e levou a Itália inteira à euforia. Muitos historiadores afirmam que aquela vitória ajudou a acalmar um país mergulhado em uma grave crise política após o atentado contra o líder Palmiro Togliatti.
Mas seu maior triunfo jamais apareceu em uma classificação.
Durante décadas, Bartali permaneceu em silêncio. Nunca procurou reconhecimento, entrevistas ou homenagens. Para ele, salvar vidas era simplesmente a coisa certa a fazer.
Costumava dizer:
"O bem se faz, mas não se comenta. Certas medalhas são usadas na alma, não na jaqueta."
Somente muitos anos depois, já idoso, seu filho conseguiu convencê-lo a revelar parte da história.
As investigações realizadas após sua morte mostraram que sua atuação ajudou a salvar cerca de 800 judeus durante a ocupação n*zif*scis*a da Itália. Em reconhecimento, o memorial israelense Yad Vashem concedeu-lhe o título de Justo entre as Nações, uma das maiores honrarias destinadas a pessoas que arriscaram a própria vida para salvar judeus durante o Holocausto.
Essas homenagens, porém, nunca foram o que o motivou.
Enquanto milhões o conheciam como um dos maiores ciclistas de todos os tempos, poucos imaginavam que, entre uma corrida e outra, aquele mesmo homem havia desafiado um regime inteiro para salvar desconhecidos.
Nas estradas, Gino Bartali foi um campeão.
Na guerra, tornou-se algo ainda maior: um herói que escolheu arriscar a própria vida para que centenas de outras pessoas tivessem a chance de continuar vivendo.
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História Perdida agradece por sua leitura
Fontes:
Yad Vashem
Museo del Ciclismo Gino Bartali
Gino Bartali Foundation
FONTE:https://www.facebook.com/photo/?fbid=122283480620085412&set=a.122242028390085412

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